11 de dezembro de 2008

Entre nós



"Em 2010 não estou mais aqui", diz Serra, em ato falho - Da Agência Estado, de 9/12




Nosso excelso governador aparece nos jornais avisando que, ao fim do mandato, não estará mais aqui. Concluem apressadamente que deseja estar em Brasília, atribuem a frase à ambição. Nada mais falso. Apenas o Grifo percebe tratar-se de rasgo profético; o governador prevê que, em 2010, já não estará entre nós, passará a outro plano de existência, deixará o vale de lágrimas abotoando um paletó de madeira.


Sabido que o sobredito é um exemplo de vampiro, será que encontrou finalmente a cura para a maldição que há séculos o persegue? Ou terá um Van Helsing em seus calcanhares?


imagem: arte povera

10 de dezembro de 2008

Aspirações

(Soube notícias desse mesmo eu que segue
dando às vezes seus tropeços, soluçando seus velhos desejos)

Hei de receber minha herança de areia

Hei de encontrar meu destino desterro

Hei de errar por atalhos estreitos


Ou

Sentir correr o ribeiro que passa em nosso quintal

Ver nascer o sol e nosso filho crescer à sombra das árvores que o vento fala

Minha alma em silêncio, sem despojos, sem desejos

dos cadernos do Rei do Hei Hei Hei

3 de dezembro de 2008

Hipocrisia

O Grifo descreu da lei moral e achou que cada um por si e todo mundo mete a mão era uma verdade incontornável.
Então caiu-lhe na cabeça grosso calhamaço de Kant. Estatelado, entre estrelas, leu nas páginas entreabertas:

"Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de outrem, sempre e simultaneamente como fim e nunca apenas como meio."

"Nada mais longe da realidade", pensou o Grifo. Depois chegou à conclusão de coubera a ele conviver com a humanidade mais degradada. Observou que, mesmo se fosse o caso, raras vezes alguém manipulava a outros como instrumentos de forma aberta, declarada, mesmo os cínicos. Ocorreu-lhe então outra frase, pois a ocasião parecia ser das citações: "A hipocrisia é uma homenagem que o vício presta à virtude."

1 de dezembro de 2008

Ainda que tarde...

Descobri agorinha que um tal concurso de contos promovido pelo Estadão em homenagem à Bossa Nova já saiu faz tempo, concluo que evidentemente não fui premiado (ai as injustiças!) com a publicação no jornal.
Quem pensar em O Barril de Amontillado sem ler essa advertência ganha uma garrafa de conhaque Dreher. Honorável Alice Ruiz: justo você, Berenice? Segue o texto que eu tinha mandado.

Brigas nunca mais

Chega. Chega desse negócio. Tá resolvido, tá acabado. Tá tudo acabado.
Mas Dorinha, teimosa; mulher, você às vezes sabe ser difícil. Dora, minha senhora, lembra como eu dizia, e você se ria toda, se balançava assim no vento, de um jeito que não sei até hoje, sempre me escapou.
Dora me escapou, não queria mais nada comigo. Soube logo que ia voltar. Em nossa casa, essas paredes esperavam você.
Virou outra Dora que eu desconhecia; séria, disse que podíamos muito bem ser amigos, próximos. Adivinhei, era isso que você queria. Mas precisava agir com cuidado, como o gato com o passarinho. Minha vontade assustava, você de perceber refugava, arisca. Um dia esse negócio acabava; íamos voltar, eu e você, aqui nesse terraço à beira mar.
Foi natural, quase; encontrei Dora no calçadão, Terça de Carnaval, bonita manhã. Amigos que se encontram, bom te ver, normal. Mostrei mesmo certo desinteresse na conversa; no meio do papo, mencionei de passagem a doença do gato cinzento que ficara comigo, testemunho da vida que ela fingia ter deixado pra trás.
- Mas tranqüilo, vou pra casa, levar o bicho ao veterinário.
- Onde, disse Dora, nesse feriado onde você vai achar veterinário aberto, só se for aquele carniceiro da rua C...
- Bem, - fingi mais hesitação – qualquer coisa eu ligo, vamos ver...
Não tinha mais jeito, Dorinha não suportou pensar no gato doente, adorava bicho; de jeito nenhum, vou com você, insistia; eu pedia que não, não se incomodasse, ela devia ter o que fazer... Estava feito, viemos a pé, sob o sol quente.
Entramos em casa; ela percorreu os cômodos, foi ao quintal, chamava o gato entre as árvores. O bicho insistia no sumiço. De volta à cozinha, Dora me encontra com um alívio, preparei sua batida de maracujá, muito gelo e rum Montilla. Dissolvera em segredo na bebida Rohypnol e ácido gama-hidroxibutírico. Com um suspiro, sentou-se. Um gole, Dora, a sombra está mais fresca. Conversamos de coisas novas e antigas, da teimosia do gato. Dora sabe rir, o refresco está ótimo, mais um pouco, Dora. O tempo passa, ela olhava para o quintal como quem olha o tempo. Sugeri que descêssemos ao porão, quem sabe o bicho não estava escondido entre tanta coisa velha.
Os pés de Dora falsearam um pouco descendo os degraus de madeira. Vários minutos na escuridão, até os olhos acostumarem. O porão antigo tinha um desvão na parede oposta à escada, sugeri a Dora que sentasse ali, num banco, enquanto eu revirava as quinquilharias acumuladas. Sem falar, Dora aceitou o repouso; ia piorando. Deita um pouco, Dora.
Ia ficando incoerente; era o momento. Deixei-a deitada no banco. Com os tijolos e o cimento depositados ali, comecei a subir a parede; o desvão seria o abrigo de Dora, porto seguro. Quando os tijolos chegaram à altura do banco, Dora já dormia profundamente. Fileira após fileira, a parede subia. Dorme, Dora, e fica aqui comigo. Não quero mais esse negócio de você longe de mim. Chega. Está acabado.
P.S.: O tal concurso exigia que o texto trouxesse a frase "não quero mais esse negócio de você longe de mim".

26 de novembro de 2008

Ars antiqua

Escandindo essas palavras por aí, meu caro, ars antiqua, demodê, o negócio agora é outro, é nem-sei-mais-o-quê.
Personagens, enredos, tramas complicadas, é um trabalho sem tamanho, e pra que? Balzac, meu amigo, não passa em nenhuma tevê. Ninguém tem mais tempo para a personalidade que se desfia ante os olhos, a angústia e o burnout da psique são a luz em volta da qual a mariprosa se esfalfa outra e outra vez. O encanto e o enjôo do vazio fazem saudar o Regresso dos Deuses. Virá? Qualquer esperança é ânsia, disse-me alguém; talvez sejam impulsos desordenados do meu cérebro. Recomendaram-me um banho psico-químico.
Restou da aurora rosidactila um folheto sobre um curso na Universidade de Tulsa, On Homeric Licks. Bom, isso é uma coisa que ao menos se pode usar, como diria minha vó.

24 de novembro de 2008

Extração de sumos

Com uma prensa hidráulica pensei certa vez em extrair sumos, resumos de obras grandes que me desanimam só de olhar. Tenho lá escondido em meu barraco n-ésimos volumes da Summa Theologica, a gente pôs em pilha e baixou a prensa em cima. O caldo recolhido é o extrato mais puro daquele papelório. O suco era escuro, espesso, parecia purê de beterraba, mas sem nenhum açúcar.
Outros calhamaços terão sabores diferentes. Em busca do tempo perdido imagino que tenha sabor de água de laranjeira, amêndoas, madeira e panos velhos; a Comédia deve lembrar carne cozida, vinho e azinhavre. Desconfio que do Código Civil extrairíamos um xarope com gosto de óleo de rícino, ferro moído e tomate.
O Ênio pretende extrair o sumo da Constituição Federal, ele diz que Se prenssássemos a Constituição extrairíamos um sabor fantasia de democracia, igualdade e justiça social, flavorizados idênticos ao original. O problema, caro Ênio, é que o livro é fininho, adptar-se-ia mal à minha prensa hidráulica. Mas a gente poderia pensar em fervura, ou outro método para extrair o sumo.

14 de novembro de 2008

Os Narizes


13 de novembro de 2008

Engrama

O traço que não se apaga
anula o gesto de quem o traça.

10 de novembro de 2008

GGRRyphus

O Grifo, grogue, esgravata grêmios e grateia a verga grelos e grutas esgrouvinhadas, esgrafejando gregotins e gregueus; grenado, grimpa, egrégio, e agraúda-se graças à grei. Grimpa grumos e grupiaras engrenado - engrimponado, logra engriguilhar-se, a engrifar grutungos. O grosso agravado, engrampa; grazosa grátis, graxadela granfa, ogro Sigrido segreda-se segrel: congregados, transgridem grades e progridem a graúdos agros aos gritos.
Agrupados, grogues, esgravatam grêmios e grateiam a verga grelos e grutas...

7 de novembro de 2008

A Galinha de Mato Grosso

Impõe-se que seja feita justiça. Devemos, nós, o povo brasileiro, homenagear o Supremo Magistrado da Nação com a alcunha de A Galinha de Diamantino, uma láurea merecida pela sua atuação incansável a serviço do Império da Lei, inclusive despachando Habeas Corpus a deshoras na penosa solidão da praça dos três poderes.



Com isso, será feita justiça a essa figura já histórica; outros juristas receberam alcunha enobrecedora, de feição ornitológico-locativa, como o pretensioso Águia de Haia, com menos méritos, ou iguais; maiores, nunca!



imagem: ars pauperrima

5 de novembro de 2008

Monteiro Lobato, profeta brasileiro

Cumpre-se mais uma profecia de Monteiro Lobato com a eleição de um negro para a Presidência dos Estados Unidos da América do Norte. Improváveis leitores, lembrai-vos do romance "O Presidente Negro", sobre o qual escrevinhei faz uns meses.


Lá estão antevistas a eleição de Barack Obama, o feminismo e a internet, por exemplo. Ufanemo-nos, então; Asimov era fraquíssimo, Júlio Verne bobalhão, Monteiro Lobato é que foi porreta, minha gente.

Outra profecia dele que se realizou foi a do petróleo, apesar da Standard Oil.



3 de novembro de 2008

Aula de dactilographia

Escrevei com os dedos, meus amigos, em teclas avessas ao toque, feitas dum plástico duro e opaco; os caracteres já apagados só podem ser lembrados pela mão insone, asdfg, asdfg, poiuy, qwert, mão insone que vira o carro com o rangido descontente do metal, e lá fora o mundo, os ônibus expiram no asfalto de sono suor e sombra.