1 de dezembro de 2008

Ainda que tarde...

Descobri agorinha que um tal concurso de contos promovido pelo Estadão em homenagem à Bossa Nova já saiu faz tempo, concluo que evidentemente não fui premiado (ai as injustiças!) com a publicação no jornal.
Quem pensar em O Barril de Amontillado sem ler essa advertência ganha uma garrafa de conhaque Dreher. Honorável Alice Ruiz: justo você, Berenice? Segue o texto que eu tinha mandado.

Brigas nunca mais

Chega. Chega desse negócio. Tá resolvido, tá acabado. Tá tudo acabado.
Mas Dorinha, teimosa; mulher, você às vezes sabe ser difícil. Dora, minha senhora, lembra como eu dizia, e você se ria toda, se balançava assim no vento, de um jeito que não sei até hoje, sempre me escapou.
Dora me escapou, não queria mais nada comigo. Soube logo que ia voltar. Em nossa casa, essas paredes esperavam você.
Virou outra Dora que eu desconhecia; séria, disse que podíamos muito bem ser amigos, próximos. Adivinhei, era isso que você queria. Mas precisava agir com cuidado, como o gato com o passarinho. Minha vontade assustava, você de perceber refugava, arisca. Um dia esse negócio acabava; íamos voltar, eu e você, aqui nesse terraço à beira mar.
Foi natural, quase; encontrei Dora no calçadão, Terça de Carnaval, bonita manhã. Amigos que se encontram, bom te ver, normal. Mostrei mesmo certo desinteresse na conversa; no meio do papo, mencionei de passagem a doença do gato cinzento que ficara comigo, testemunho da vida que ela fingia ter deixado pra trás.
- Mas tranqüilo, vou pra casa, levar o bicho ao veterinário.
- Onde, disse Dora, nesse feriado onde você vai achar veterinário aberto, só se for aquele carniceiro da rua C...
- Bem, - fingi mais hesitação – qualquer coisa eu ligo, vamos ver...
Não tinha mais jeito, Dorinha não suportou pensar no gato doente, adorava bicho; de jeito nenhum, vou com você, insistia; eu pedia que não, não se incomodasse, ela devia ter o que fazer... Estava feito, viemos a pé, sob o sol quente.
Entramos em casa; ela percorreu os cômodos, foi ao quintal, chamava o gato entre as árvores. O bicho insistia no sumiço. De volta à cozinha, Dora me encontra com um alívio, preparei sua batida de maracujá, muito gelo e rum Montilla. Dissolvera em segredo na bebida Rohypnol e ácido gama-hidroxibutírico. Com um suspiro, sentou-se. Um gole, Dora, a sombra está mais fresca. Conversamos de coisas novas e antigas, da teimosia do gato. Dora sabe rir, o refresco está ótimo, mais um pouco, Dora. O tempo passa, ela olhava para o quintal como quem olha o tempo. Sugeri que descêssemos ao porão, quem sabe o bicho não estava escondido entre tanta coisa velha.
Os pés de Dora falsearam um pouco descendo os degraus de madeira. Vários minutos na escuridão, até os olhos acostumarem. O porão antigo tinha um desvão na parede oposta à escada, sugeri a Dora que sentasse ali, num banco, enquanto eu revirava as quinquilharias acumuladas. Sem falar, Dora aceitou o repouso; ia piorando. Deita um pouco, Dora.
Ia ficando incoerente; era o momento. Deixei-a deitada no banco. Com os tijolos e o cimento depositados ali, comecei a subir a parede; o desvão seria o abrigo de Dora, porto seguro. Quando os tijolos chegaram à altura do banco, Dora já dormia profundamente. Fileira após fileira, a parede subia. Dorme, Dora, e fica aqui comigo. Não quero mais esse negócio de você longe de mim. Chega. Está acabado.
P.S.: O tal concurso exigia que o texto trouxesse a frase "não quero mais esse negócio de você longe de mim".
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