25 de março de 2009

Indignação seletiva

Nesse dia de hoje, o judas foi escolhido pelo Estadão, logo de manhã em seu sítio: os diretores da Assembléia Legislativa. Depois, ouvi a CBN martelando na questão por mais de meia hora.
É um caso típico de incitação à indignação seletiva. De fato, a questão é apresentada sem nenhum contexto: parece que os cargos, os sessenta e tantos cargos, nasceram, ou vegetativamente foram crescendo na Assembléia Legislativa, e agora, de repente, constata-se que são muitos: os próprios deputados indignam-se.
Não, os cargos obviamente não surigiram do nada, a atual estrutura administrativa da Assembléia foi criada por Resolução, proposta pela Mesa Diretora e aprovada em plenário, há mais de doze anos.
Agora, outras discussões não se colocam: porque será que nunca se questiona a existência de 16 cargos de provimento em comissão para cada Deputado? O Deputado pode nomear quem ele quiser para qualquer um desses cargos, sendo que para alguns não é requisito sequer saber ler e escrever.
A imprensa incita à indignação seletivamente. Quanto a descalabro administrativo, que tal a verba de gabinete, assunto que surgiu na imprensa de repente, na época da eleição para as Mesas da Câmara e do Senado, e tão rápido quanto veio, sumiu. Também na Assembléia a proposta de publicar o CNPJ dos fornecedores dos gabinetes causou preocupação. O assunto evaporou, arruma-se outro, um judas para a malhação pública, de preferência um dos culpados de sempre: o funcionário público efetivo, responsável por tocar a máquina pública, aquele que representa o elo de continuidade das políticas públicas relevantes; nunca a imprensa se detém sobre o verdadeiro enxame de nomeações para cargos em comissão, exercidos por pessoas que não tem compromisso público, apenas compromisso com quem os nomeou. Nunca as reformas administrativas tocam nesse feudo de interesse de uma classe política que é, de fato, a vanguarda do atraso. À imprensa, seletivamente, esse assunto não interessa.
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