9 de fevereiro de 2011

Fobia

Fobia
de andar por aí
de conversar no elevador
de dizer o que não devia
da amizade insincera dos corredores
da mesa ao lado
sobretudo dos vizinhos
ah esses sorrisos viciados, abertos a faca
dentes a mostra, nostalgia da mordida
com que nos brindam
de dia e de noite
os importunos cidadãos de bem
que nos acompanham na calçada
que por um acaso nos encontram
que pululam nas ruas dessa cidade
como num deserto, as formigas
cuja presença não consola, são antes pequenos tormentos
atrozes, e nós auscultando
o céu, a procura das aves
ou do esquecimento do mar, mas antes
temos de cumprir um compromisso,
responder uma mensagem, percorrer a rua Direita mais uma vez
mais uma vez torcemos em segredo
por aquelas catástrofes de filmes, por que não agora
um meteoro, um monstro horrendo ou qualquer bestialidade
não anula tudo, não sepulta a cidade de uma vez?
Logo se vê, horrível não é o fim instantâneo
- mas a continuidade desses ritos, desses tipos incessantes,
desses mecanismos de controle que se sucedem
num enjôo duma febre desmemoriada
dessa água muda que não corre de regatos
engarrafadas em corredores desnudos
que se escondem sob a terra
debaixo de trincheiras de metal.
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