28 de fevereiro de 2014

Nas entranhas de Moloch


Andava em campos amplos eu um dia
quando a sorte quis, ou a desdita,
que me viesse ao ouvido meu
essa cantiga
"vamos às entranhas de Moloch"

Duvidei então da melodia
que lenta e triste se esvaia
nas tardes brandas estivais
e pensava então
que idéia estranha,
irmos às entranhas de Moloch!

Em sossego, pus-me na moenda
a assobiar, sem nem notar
aquela cantiga que ouvira na estiva
e assaltou-me a ideia avara
vamos às entranhas de Moloch!

Pois nós, homens pequenos,
vivemos nessa terra à prestação,
enquanto à sombra escondem-se esquivos
os vários e assombrosos tesouros de Moloch!

Mil bocas não bastam a murmurar
a reforçar a fantasia que a alma abrasa
e seca a garganta do coração

vamos, corramos já, antes que acabe,
antes que o azar, ou a castidade
nos proíbam de gozar à toda vontade
os amplos, indizíveis, tesouros de Moloch!!

Fui então, na trilha aberta,
pelos olhos da cobiça sem razão
em busca da grande falsidade,
da obra de infinita fatuidade,
quis as posses e o ouro de Moloch!

Vai! vai por aí, meu celerado,
disse-me um anjo, ou um aloprado,
esta senda dá numa antiga cave
escura, porém ampla e penetrável

Na escuridão, não terás medo,
rebrilham ouros, e o segredo
é nada sentir, pouco dizer, e logo,
terás mais do que imaginas a dispor;

Cheguei à cave, escura e ampla,
andei a sós, com confiança,
porém cedo pensei, porque ninguém
diz palavra alguma,
o calor de gente, a voz humana
não nos aquecem nessa estância dura
como pedra bruta, ainda que rara,
pois deve ser assim, tal amargura
assola a vida sob a terra, esconde-se o frio,
que guarda
com dentes arreganhados os tesouros de Moloch.

(continua....)

Um comentário:

Gian Zelada disse...

Estou adorando! Aguardo a continuação.