13 de junho de 2013

No meu tempo...



Essa molecada de hoje é boa demais, no meu tempo não tinha isso não, não tinha essa clareza de visão.

Em tempo: e o PCC?

Detesto ter de escrever um texto como esse. Tenho muito mais vontade em falar sobre como foi emocionante andar pelas ruas de São Paulo ao lado de 15 a 20 mil pessoas, sob forte temporal. Uma chuva grossa que afastou uma parte considerável dessa galera, mas fortaleceu quem decidiu ficar. Ficar pra valer, com certeza de que essa tarifa será reduzida agora, imediatamente, certeza de que o transporte não estará mais nas mãos de empresas privadas (ou regido sob um viés privado ainda que em controle do poder público) e certeza de que essa tarifa nem deveria existir. Simples, ora, como já escrevemos tantas e tantas vezes, o deslocamento deve ser um direito, algo que caiba a todo mundo, sem exclusão, assim como o é a saúde e a educação.

Gostaria muito mais de celebrar o nosso campo de luta, dando ênfase no Movimento Passe Livre, que é indiscutivelmente de esquerda, de esquerda de verdade: se motiva pelas necessidades populares, contra as derrotas que o capitalismo tenta nos impor e por projetos que garantam melhores condições de vida para o conjunto mais explorado da nossa sociedade. Está do lado das pessoas, não dos governos. Enfim, a tarifa de ônibus não tem partido e deve ser combatida, independente da conjuntura do poder. A tarifa é um muro de Israel, que impede a passagem de um povo por seu território. A tarifa é um apartheid urbano.

Vim aqui escrever esse texto curto por outro motivo. Para dizer que mesmo sendo um ato imenso, só teve um momento realmente violento: o final premeditado pela polícia. Não foi no tenso impasse diante do Terminal Parque Dom Pedro, cujo desfecho pareceu até simples: tropa de choque se postou diante do ato e a força tática se posicionou atrás. Não havia pra onde ir, eles atacaram, recuamos.

Depois dessa dispersão, vários pequenos e grandes atos rolaram simultaneamente, até que a rapaziada voltou para a Avenida Paulista. Lá a manifestação tomou todas as pistas de uma das vias, sentido Consolação. Depois de cinco horas de pernada pelo centro de São Paulo, o ato se encaminhava para um final. Na altura do vão do Masp, uma parte dos manifestantes tentou ocupar a outra via da avenida. Bem ali estava a tropa de choque e vários de seus amiguinhos da polícia militar em volta de sua base.

Alguém foi detido. Sei lá por quê. Eram pouquíssimas pessoas nessa “ala”. Mas quem estava lá gritou pela soltura do detido. Ou detida, não posso ter certeza se era homem ou mulher*. Enfim, a turma gritou, o resto da multidão estava se aproximando e nessa hora os canalhas da polícia militar começaram a jogar várias dessas novas bombas de gás, brutais, densas, que permanecem no ar, no seu rosto e na sua traqueia por mais tempo. Ficamos presos, entocados. Estou falando de milhares de pessoas, 5 mil, 6 mil, 7 mil, por aí. Uma parte dessa turma desceu a primeira rua que encontrou. Outra permaneceu esmagada na porta do museu. E outra tentou recuar pela própria avenida. Não satisfeitos com essa primeira “dispersão”, seguiram atrás dos manifestantes atirando uma bomba atrás da outra. Contei dezoito, enquanto andava sem saber pra onde, sem enxergar e sem conseguir respirar.

Nessa hora vi o primeiro cara empunhando uma barra de ferro. Quis quebrar o carro de reportagem de uma emissora de TV, mas todos ao seu redor o impediram. A polícia por sua vez voltou a atacar, empurrando essas pessoas para ruas no entorno da avenida, com mais bombas, mais gás. A revolta foi estimulada de fora para dentro, por aqueles que têm o monopólio da violência e brinquedinhos capazes de realizar essa violência, contra outros que não podem fazer mais nada além de quebrar vidraças e lixeiras. Provavelmente amanhã leremos que o movimento como um todo tem como traço característico uma sede prioritária de violência. Não é verdade. Ainda que eu não caia nesse conto moralista e conservador sobre a violência. Nesta nossa sociedade, dividida em classes e mantida por um Estado agressivo, a violência é permanente: na fome, na miséria, na repressão ao desenvolvimento pleno de cada indivíduo, transformados um a um em meras máquinas de produção de riqueza para poucos.

Policiais caçaram manifestantes pelas ruas. Só de uma delegacia soube de 25 detidos. Aguardo um número preciso. E enquanto escrevo isso, leio pelo twitter do Passa Palavra que “o delegado responsável pelas detenções na manifestação contra o aumento exige R$ 20 mil por detido em flagrante, independente da acusação”.

Já presenciei situações em que o Estado foi não só repressor, mas cruel. Nas duas vezes em que nosso movimento em Floripa reduziu as passagens. Quanto mais eles batiam, mais o movimento crescia. A indignação por conta dessa violência superou a manipulação de informações e extrapolou os limites do alcance do movimento. Muitos vieram, não só contra a injustiça no transporte, mas contra a injustiça em relação à liberdade de lutar. Por sinal, um direito que temos apenas porque muitos se manifestaram, por vezes de forma mais intensa.

Quinta-feira vai ser maior.
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