15 de março de 2011

O ataque impiedoso do velho rabugento

Eu hoje sou velho e rabugento. Reclamo de tudo e de todos.
Agora vou comprar uma bengala, e assestar vigorosos golpes em tudo o que me aborrece. Minha mulher, aquela santa, terá de ir me resgatar no distrito policial toda vez em que for assaltado dessa fúria que se permite aos velhos.
Confesso que não via a hora de ter minha própria bengala.

Tudo pode merecer bangalada; como diria qualquer engraçadinho, un coup de canne jamais n´abolira le hasard.
Por exemplo, a mania submissa da pronúncia. Hoje de manhã me irritou. Esse pessoal que tem alergia à língua portuguesa e desanda a falar qualquer palavra estrangeira enrolando a língua, torcendo a boca pra não sujar a palavra gringa, bacana, com as cores desse português brasileiro, chinfrim e mulatinho - como aquele presidente.

E dê-lhe core - fala-se, meus amigos, como o vocábulo latino "cor" com a pronúncia de Piracicaba. Se a gente disser isso a um desses puristas da pronúncia, ele fica triste, ressabiado, a gente estraga o prazer dele falar bonito. Que nem em Piracicaba não, isso nunca. Se fosse 5th Avenue, Faubourg St. Honoré, vá lá...

O pretenso valor social da pronúncia não passa de um manto esfarrapado que esconde a ignorância dos que o usam, pois o importante não é ser adestrado na língua do outro, mas conhecer a sua. Vê se o alemão sabe pronunciar "Pixinguinha", ou o americano; isso não os impede nunca de conhecer tudo a respeito.

Mas o melhor de tudo isso é que achei boa a idéia de descrever a pronúncia conforme aí em cima. Está inaugurado o Dicionário Prosódico do Velho Rabugento, a que me dedicarei com empenho. Um impulso positivo; até passou a vontade de dar bengaladas.
Minha mulher não vai ter de me retirar do distrito, pelo bem da harmonia familiar.
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