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13 de outubro de 2011

A Máquina Paródica do Grifo - IX

Cenas dos capítulos anteriores
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Resumo: O Grifo tem uma máquina paródica, e seu uso leva nossos heróis a estranhas situações

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O sujeito encolhia, quando levantei para interpelá-lo era já um mero sujeitinho, e sua impaciência tornava-se aflição, a olhos vistos, ouvidos, a olhos enxergantes. Segui na direção dele, "nós nada fizemos, meu caro, você e sua claque de seguranças são histéricos. Estou cheio de suas perguntas". Senti-me bem ao dizer; fui em sua direção, ele atingiu o tamanho de uma criança, e fugiu correndo para a direita.
Deixou de interessar-me; era pouco, ante o inusitado de a parede à minha frente dobrar-se, no seu canto esquerdo, uma curva abriu-se ante meus olhos, e o canto da parede projetou-se para trás, uma abertura, o lado escuro atrás da parede, não havia dúvidas que era a direção a seguir, deixar pra trás a sala vazia.
Até o pássaro se fora.
O caminho era escuro, como a entrada dos cinemas, entre duas cortinas, e meus passos eram surdos. Ainda tive de pressentir uma ou duas curvas com as mãos nas paredes forradas de tecido macio, antes que vislumbrasse luminosidade a mostrar o fim daquele corredor fechado. Andei naquela direção.
Do escuro, a luz; o ambiente era branco, iluminado, as janelas no alto eram multiplicadas por espelhos, muitos espelhos nas paredes, que refletiam à vertigem a cada passo. Uma sala de espelhos. Estava só e tive receio de olhar para os lados, hesitei inutilmente ante a multiplicação infinda da minha própria imagem.
Aflição da vertigem, penso que algo há de estar errado. O Grifo, afinal, deve saber de alguma coisa, onde terá se metido; quem serão aquelas pessoas à mesa, três à mesa, um quarto lugar, uma senhora me olha de modo suave e no entanto assertivo, o lugar, não há dúvida agora, está à minha espera.

3 de outubro de 2011

A máquina paródica do Grifo - VIII

Sim. Ainda persiste a série interminente da máquina paródica de O Grifo. Nem nós sabemos a razão de tanta persistência. Cartas para a redação.

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Dah, unhgs, eram monissílabos que o homem soltava entredentes, com esforço, com raiva. Iluminado pela única lâmpada pendurada no teto por um fio, via o suor em seu rosto cada vez que passava pela luz fraca, andando de um lado para o outro na sala vazia e sem graça.
Eu me sentava em uma cadeira metálica. Soube que devia esperar o que aquele sujeito,  impaciente pelo jeito, iria dizer. Andava e andava mastigando seus dentes, na frente de uma parede de blocos, tijolos aparentes, as sombras da pálida lâmpada projetavam-se nos lados da parede. O nervosismo daquele inquisidor por algum motivo me deixava calmo, não vi motivo para inquietação. Até que ele berrou, de repente a cara vermelha, com as duas mãos apoiadas na mesa à sua frente:
- O que vocês fizeram??!!
Intrigavam-me os olhos a saltar das órbitas, a qualquer momento os globos poderiam pular, vivos; depois do berro, um silêncio, vi à minha direita um pássaro bater asas na gaiola. Engraçado. Não tinha percebido ele ali.
Mas estava tranquilo, estranhamente; o bater das asas do pássaro confirmava que tudo andava bem. Levantei-me, como quem explica, de boa vontade, como um otimista incorrigível, e expliquei para meu acusador boquiaberto, arfante:
- Mas, o que foi que eu fiz?
Pareceu incrédulo, e sua incredulidade o encolhia ante meus olhos.


Continua...

7 de maio de 2010

A máquina paródica do Grifo - VII

Entramos. Na penumbra não se via muita coisa; os passos do outro lado da porta cada vez mais distantes. Éramos conduzidos por corredores escuros, de quando em quando ofuscados pelas eventuais janelas que se abriam. Os passos metálicos ecoavam. Havia capotes verdes e bonés militares. Entrevi na penumbra uma pistola na cintura de uma mulher de cabelos presos no topo da cabeça.

O labirinto de corredores nos levou enfim a outro galpão, ampla caverna subterrânea. A luz difusa não vinha de fontes artificiais, vinha do teto, como que permeável. E no entanto eu tinha certeza de que havíamos descido; devíamos estar abaixo do nível do chão.

O Grifo caminhava sobre duas pernas, as asas encolhidas; eu estava curioso; detido, mas nossos guardas pareciam até respeitosos. Quis até ensaiar um sorriso para uma loirinha ajeitada, de uniforme militar – teria eu um fraco por uniformes? Passávamos por estruturas metálicas incompreensíveis, em meio a tubulações que davam voltas e subiam para o teto altíssimo.

Súbito, uma mesa, um homem grisalho sentado diante dela, de óculos de aro fino sobre o nariz; olhou-nos sobre as lentes, com um esboço de sorriso: - Chegaram, afinal!

Havia duas cadeiras, sentamo-nos como se fosse o esperado. A escolta sumira em silêncio.

O homem usava uniforme, com galões e estrelas; magro, nos encarava com olhos grandes, com um quarto de sorriso, que aumentou quando começou a falar, encarando o Grifo inicialmente.

- Então são vocês. Têm idéia do que estão fazendo?



o que acontecerá com nossos heróis?



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20 de novembro de 2009

A máquina paródica d´ O Grifo - VI

Percorríamos já por um bom tempo o amplo galpão, ordenado, silencioso, claro e limpo; de longe via pessoas aparentemente fazendo alguma coisa - não fazia idéia do que. O ritmo dos passos tomou o lugar da conversa entre eu e o Grifo; seguíamos em silêncio. Da mesma forma, em silêncio, e com um sorriso no rosto, aproximou-se de repente um senhor amável, de avental, que nos saudou.
- Ah! Chegaram enfim, os dois.
Outros assistentes o seguiam, todos amáveis e sorridentes; a empatia que irradiavam era notável, qualquer um percebia que éramos esperados naquele lugar, o que no fim das contas deu um sentido à caminhada. Sorrimos de volta, mal esboçamos cumprimentos e já nos levavam por um corredor mais estreito, à esquerda no enorme galpão. Ao passarmos por uma porta, alguém virou-se para trás e disse: Não deixem o Borgartem passar. A porta foi fechada.

19 de agosto de 2009

A máquina paródica V

- Mas é incrível, disse ao animal, que sorria, - uma coisa estranhíssima essa máquina! Veja que em poucos minutos já senti efeitos inegáveis!

- A indução de consciência é notável, de fato, disse o Grifo. - Temos pouco tempo antes de sentirmos o efeito rebote, também interessante.

- Mas como efeito rebote, ia perguntando, já tardiamente; no arrabalde, as nuvens do enterdecer começaram, conspiratórias, a parecer gás engarrafado, o que não deixava de ser justo, pensava eu, notando, em consciência duplicada, a alteração das percepções.

Vi-me num salão amplo, um galpão em que grandes condutos passavam lá em cima, no teto alto, e o sentido da profundidade quase se perdia, de tão grande o prédio; a parede a nossa frente, quase a perdíamos de vista. O Grifo, notável, continuava com aparência de Grifo, o que me deu uma ponta de dúvida quanto ao caráter alucinatório da coisa toda.

16 de julho de 2009

A máquina paródica do Grifo existe de fato (IV)

Sim, o polimorfo animal enfim permitiu que eu visse o dispositivo a respeito do qual vinha falando. De metal fosco, a bojuda máquina paródica tinha hastes de metal a sair-lhe do corpo, como várias alças; na parte de cima, alguns fios e antenas.
- Meu caro Grifo, isso parece uma paródica máquina de inventores dos quadrinhos.
Reticente, o monstro sorriu, e demorou um pouco antes de murmurar:
- Exatamente.
Acionada, a máquina emitiu um zumbido baixo, incessante. O Grifo explicava-me que a alimentação se dava por baterias solares, e enquanto a criatura falava de íons e correntes, mencionou um componente importante da traquitana - o indutor de consciência.
De repente, a voz do grifo pareceu vir de uma figura de avental, a quem não divisei direito logo de cara; apertei os olhos e vi um rosto levemente enrugado, cabelos brancos e óculos de aro fino, que me explicava coisas incompreensíveis com ar tolerante, professoral. Procurei entender o que ele falava, o senhor com leve ar de gnomo, que me explicava agora com uma lousa, em um gabinete de experiências, com retortas e tubos de ensaio; tive um sobressalto, esfreguei a cara: estávamos no arrabalde, entre os ramos de mato, e o Grifo me encarava curioso.
- Percebe como funciona?

5 de junho de 2009

A máquina paródica do grifo - III

Sim, o Grifo com certeza possui uma máquina paródica, e a guarda lá longe!




Chegamos a um descampado amplo, de onde se via a cidade ao longe, encimada por uma nuvem permanente de fuligem e gases mefíticos. O Grifo aterrisou no meio do descampado, num mato já alto, e ao longe se viam uma ou outra árvore. Finalmente chegamos em casa, disse animado a besta biforme; logo vamos ver a máquina. Aceita um pouco?, perguntou, enquanto inclinava o pescoço e mordia com vontade uma touceira verdinha. Balbuiciei que não, obrigado; estava conhecendo a morada daquele estranho animal, com quem já convivia há tanto tempo, e dei-me conta afinal era um herbívoro. Afastei-me um pouco, por algum motivo acho que companhia para quem come só pode ser alguém que coma também. O descampado, sob o vento que começou a soprar, parecia uma campina distante, ampla, o balanço dos ramos dos arbustos adquiriu ritmo, lembrei-me das savanas na África. Já entrevia uma zebra ao longe, e de repente um sobressalto: era o Grifo me chamando. Vamos ver a máquina, disse; o arrabalde de repente me pareceu comum, desolado. Segui o Grifo.

29 de maio de 2009

A máquina paródica do Grifo - II


resumo do capítulo anterior: o Grifo possui uma máquina paródica!



Aquela preocupação com a máquina do grifo naturalmente foi cedendo seu lugar a outras, como costuma acontecer; o gás, a poluição, o tempo que muda, a taxa de juros, nosso time, quantas mais? Até que dobrei uma esquina e precebi que de cima de um telhado o Grifo me espreitava com um sorriso no bico. Ai, a multímoda criatura, pensei, e lá estava ele diante de mim, abanando as asas. - Olá, meu amigo humano. Como vai? - Assim, assim, meu caro Grifo. E você? - Ah, meu chapa, minha máquina é fantástica! Vamos até lá, vou te mostrar o que ela é capaz de fazer. Ainda nem cheguei aos limites dela... - Mas Grifo, eu estou indo ao banco, logo ali, pagar minhas contas. - Ah, os negócios humanos! Sempre as preocupações mais irrelevantes... A criatura estava totalmente absorvida pela máquina. Eu me lembrei do que pensara sobre a máquina, aquela sensação estranha de não saber o que era efeito da máquina e o que não. Mas, rá, o hábito de rir das preocupações iria falar mais alto. - Bem, Grifo, o banco é logo ali... - Nem se fala mais nisso. Vamos logo ao banco, e depois faço questão que você vá ver minha máquina. Fica difícil negociar com um animal que quando abre as asas tem uma envergadura de mais de cinco metros. Enquanto eu discutia com o gerente, o Grifo descansava entre as gárgulas da fachada. Logo depois estávamos voando, eu montado na coluna do Grifo e o animal impávido pelo ar, rumo aos arrabaldes da cidade, onde o Grifo mora.


continua...

20 de maio de 2009

A máquina paródica do Grifo

O Grifo adquiriu de terceira mão uma máquina paródica. À distância, parece um moedor de carne, nada demais; segundo ele, quando ligada, a máquina emite ondas que ativam no proprietário a zona paródica do cérebro. Confessei a ele que nunca tinha ouvido falar desse constructo cerebral; o grifo deu de ombros (o que no caso dele sempre é meio assustador): realmente, ninguém ouviu falar muito disso, mas existe essa zona paródica, responsável pela interpretação de estruturas homólogas e replicação na forma de linguagem e contexto, e além disso... eu interrompi o quadrúpede alado, calma meu caro, isso está ficando complicado (na verdade eu queria refrear o entusiasmo do bicho, que quando engrena num assunto vai abrindo as asas, batendo as patas no chão que nem cavalo nervoso). Lembrei que ele sempre tivera essa mania de imitar, de parodiar; perguntei a ele: e quando você parodiou O Corvo, já usava essa máquina? O Grifo respondeu: claro que não, eu comprei anteontem. E você já usou a máquina, perguntei; ele me disse que era uma máquina muito boa, funcionava otimamente. Ficou inclusive me mostrando umas manivelas que acionavam a geringonça. Conversamos de mais algumas coisas, e me despedi, era de tarde.
O que não me sai da cabeça agora é o seguinte: e se o diabo da máquina estava ligada, tudo o que falamos era uma paródia de alguma outra coisa? Mas do quê?