Ouvi outro dia mesmo, uma mãe perguntou para seu filho, já adolescente, o que queria estudar, essas coisas, e o menino: "quero estudar mecatrônica, para trabalhar na indústria bélica".
Ups.
Por que será que ele veio a querer isso? Porque os mais jovens entendem mais a época que se avizinha, como se viessem sintonizados com o porvir, ou será que o futuro é moldado pelos desejos deles, que o viverão?
Veremos o retorno do reprimido?
De qualquer forma, parece que a indústria bélica vai continuar ganhando muito. Vi análises perfeitamente racionais, segundo as quais o momento faz relembrar 1929, e a reação na verdade insuficiente do New Deal. O ano de 1937 viu nova crise precipitar-se, a economia só voltou a crescer com a guerra, paradoxalmente.
Será essa tendência paradoxal das sociedades humanas, e das economias também humanas, um desejo de imitar na nossa patética escala humana a respiração cósmica de Brahma, que inclui a criação, o florescimento e a destruição de mundos? Ou será um movimento quase instintivo, a auto-destruição de uma espécie enjaulada, horrorizada ao olhar a volta e ver o mundo todo tomado por seus semelhantes?
Em todo o mundo, grupos políticos raivosos parecem dominar a política, mesmo à despeito da vontade popular, que assiste a tudo como que anestesiada, sem canais de expressão.
Sei não. Eu tenho filho pra criar, sai pra lá, Huitzilopochtli.
Em Outras Inquisições, Jorge Luis Borges conta essa história, que há de querer dizer alguma coisa. Aprendemos que o Buda foi canonizado santo cristão. E nós que achávamos que sincréticos eram os outros. Mas antes é preciso conhecer a história do príncipe Gautama, que se tornou o Buda.
"No início do século VII, um monge cristão escreveu o romance intitulado Barlaão e
Josafá; Josafá (Josafat -- Bodhisattva) é filho de um rei da índia; os astrólogos
predizem que ele reinará sobre um reino maior, que é o da Glória; o rei confina-o em
um palácio, mas Josafá descobre o infortúnio da condição humana na figura de um
cego, de um leproso e de um moribundo e, por fim, é convertido à fé pelo ermitão
Barlaão. Essa versão cristã da lenda foi traduzida para muitos idiomas,
inclusive o holandês e o latim; a pedido do Haakon Haakonarson, foi composta
na Islândia, em meados do século XIII, uma Barlaams Saga. O cardeal César
Barônio incluiu Josafá em sua revisão (1585-1590) do Martirológio Romano;
em 1615, Diogo do Couto denunciou, em sua continuação das Décadas, as
analogias da falsa fábula indiana com a verdadeira e piedosa história de São
Josafá. Tudo isso e muito mais o leitor poderá encontrar no primeiro volume de
Liberdade, ainda que tarde
Custou-me compreender que o jugo interno é que liberta.
Tive muita fantasia de liberdade, de exercer uma imaginação sem freio, de nada fazer enfim, porque nada me constrangia; imaginando-me livre, vi-me jungido dum jugo quase maior que a vida.
Outra ilusão aprisionante é condescender com os impulsos mais obscuros, ou gratuitos, simplesmente porque lá estão; oposto de liberdade, é embrutecimento.
Encontro as pessoas que não se apegaram a um dever-ser, e deixaram de assumir um compromisso maior, e nossos olhares se desencontram. Mas, estou moralizante demais. Apenas intuí essa verdade superior em meio à minha própria ignorância, e a respeito. Percebo que faz todo o sentido.
A arqueologia e a paleontologia são fantásticas. Quem dedica a vida a essas ciências é privilegiado. Mas suas as aproximações e tentativas que têm de fazer são quase desesperadas, como só os apaixonados conseguem.
Eu também terei, no caso desse fóssil canino da Sibéria , meu palpite a dar; sua comprovação é tão boa quanto qualquer hipótese paleontológica (desculpem a falta de modéstia). Trata-se de um texto sobre a origem enigmática do culto do Apolo Lobo, Apollon Lykos, o Apolo Liceu.
Então é uma postagem meio sem jeito, propagandeando um texto que eu preciso achar lá em casa, nos meus guardados.
Se houvesse racionalidade no capitalismo financeiro, essa seria a hora do reformismo.
Seria preciso mudar alguma coisa para que tudo continuasse igual.
Mas não há; o que tem é um bando de fanáticos e alguns céticos, outros cínicos; ninguém liga de estar em um ônibus em alta velocidade à beira do abismo.
Não sei se arranjo uma consulta num psiquiatra, estou achando as hipóteses conspiratórias de Bilderberg, do estratagema Obama bem razoáveis. Afinal, o sujeito engoliu uma derrota parlamentar para um grupo de palhaços quando havia opções institucionais à mão, com a consequência previsível de agravar uma crise, essa sim imprevisível.
Se o evangelho ensina que os juros são função do risco, porque os títulos do tesouro brasileiro pagam tanto juro, e os títulos norte-americanos, esse país insolvente, não pagam quase nada?
Temos visto, da redação d´O Grifo, um mimoso filminho e uma trilha animada nas rádios exortando o respeitável (?!?) público a não utilizar o papel-moeda, essa coisa repentinamente declassée e de profundo mau gosto.
Como nos entretivemos com o tal filminho!
Tanta coisa nos ensinou o filmeco. Primeiro, que quem fala uma variante do castelhano é brega, cafona, em suma, uma gente de quem devemos fugir correndo. Já não sabíamos disso?
Outra, é que deveríamos ter vergonha de usar algo tão antiquado como o papel-moeda nas nossas compras diárias, na padaria, no botequim, na farmácia e nos bons estabelecimentos que a distinta leitora e o digno leitor usam frequentar.
A salvo das gaffes, devemos agradecer a benemerência das instituições bancárias, que nos oferecem, a custo módico, esses assépticos cartões de plástico, a moeda do futuro que já chegou?
Talvez, mas antes pensemos um pouco. Os irmãos Dupond e Dupont diziam com sua sagacidade habitual: cui bono?
Meus amigos, a voracidade do sistema financeiro chegou ao ponto máximo; os bancos querem conservar consigo nossos trocados, está brigando - como no filminho - pelo troco.
Pretende que mantenhamos nosso dinheiro o máximo no banco, utilizando os cartões para todas as transações, de forma que sempre é preciso ter dinheiro na conta.
O assalariado, essa raça que não se extingue pelos serviços que presta compulsoriamente aos donos do capital, tem dinheiro na conta quando recebe seu salário, dinheiro que vai sendo progressivamente sacado, conforme o didático gráfico abaixo, até o agônico fim de mês, quando o assalariado fica sem nada aguardando o próximo salário.
gráfico I: bureau de estatísticas econômicas de O Grifo/ars pauperrima
Com a solução mágica dos cartões de plástico, o correntista não faz saques além do estritamente gasto, não fica com aquelas notas que sobram -- o troco. Não: o troco agora será do banco. Este capital restante será devidamente usado na "alavancagem" monetária, na criação de moeda, essa liturgia moderna operada pelos bancos, objeto de fé universal.
A tendência, teoricamente, ficaria melhor representada pelo gráfico abaixo: os restos continuam na conta, pois o correntista precisa mantê-la com saldo para poder usar o seu cartão.
gráfico II: bureau de estatísticas econômicas de O Grifo / ars pauperrima
O banco fica mais tempo com nosso troco, e com ele opera a "criação de riqueza" da economia de hoje, mais e mais exclusivamente financeira.
Além disso, existe uma mágica adicional: os bancos conseguiram criar um tributo sobre todo o comércio, com o uso de cartões, sem necessidade de lei, ou seja, a despeito da soberania popular (??), e o impõem sem que tenham sua própria polícia, bastam-lhe os anúncios de TV pelos quais associam suas máquinas de cartão a miraculosas facilidades e confortos.
Por não mais saber o que sabia, procurou a sabedoria dos velhos manuais.
A lombada imponente sempre ajudava. Cogito ergo sum Credo quia absurdum
Então chegou a formular esta certeza: Não é porque acredito que será falso.
E outro axioma de seu sistema particular, aparentemente contraditório com o primeiro: Caso eu imagine alguma coisa, provavelmente ela não acontecerá nos mínimos detalhes. A previsão e a profecia são impossíveis.
Não consta que tenha vivido melhor ou pior que os outros por acreditar em tais postulados, mas sofreu muito de insônia.