28 de abril de 2011

Abril é o mês mais cruel

APRIL is the cruellest month, breeding



Lilacs out of the dead land, mixing


Memory and desire, stirring


Dull roots with spring rain.


Abril é o mês mais cruel, esse outono incerto

esse ar de deserto com uma garoa gelada.

Deusa Salus, que fiz eu que não nos visita mais em casa?

Volta, que precisamos de você demais, por Asclépio.

13 de abril de 2011

Paisagem Sem Vista

Manhã na cidade,
passa um homem,
andando
Passa um carro
andando
Passa um mundo de carros,
um mundo de gente,
e os ônibus cheios de gente
e de todo lado vai andando gente
daqui pra cá, e pra toda parte
sem conta,
e nos prédios se apinham
gente sobre gente
sem conta
e depressa
E a prosa não tem rumo, não tem prosa
espremida entre quatro paredes, entre as portas dum carro,
as perguntas não têm resposta, a prece muda e morta do rádio
nos guia às cegas pelos escombros baldios,
e as avenidas largas, maiores que as de babilônia,
levam aos desvãos mais escuros e mortos, sem remédio
aos becos sinistros de poeira, restos e graxa,
aos baixios do glicério onde a cidade que existe
nem se esconde, existe escura e sob a camada de luzes, cores sobre cimento das construtoras que querem normalizar o ambiente
queremos estas quadras sem rumo
mais prédios de gente
sem conta
e depressa
e seremos outros tantos
como nós
e os becos escuros existirão noutra parte
como nós

24 de março de 2011

Lexotan® apresenta:

Clássicos em pílulas

Esta série benemérita de sucesso mostra que o público aceita tudo, desde que bem acondicionado. Hoje temos a honra de trazer a vocês, em movimento contrário, mais um clássico imortal:

A ODISSÉIA

O último rei morreu na cama, depois de flechar os folgados que estavam de olho na patroa, quando chegou em casa como mendigo, vindo do mar; o seu barco afundou tantas vezes porque o mar tinha raiva dele, tudo por causa de um churrasquinho em que seu pessoal se excedeu. Faturou feiticeiras, resistiu a sereias. Só queria chegar em casa, depois de vender gato por lebre aos inimigos numa guerra braba, na qual teria dado uma boiada para não entrar.

21 de março de 2011

leitura

Soneto Correcional, de Glauco Mattoso

20 de março de 2011

Os Clássicos em Pílulas Apresenta:

Sob o patrocínio generoso de Lexotan, temos a honra de apresentar, encapsulado em pílula literária, mais um clássico memorável:

Ulisses

A batalha é a mesma para todos, meu velho. Trocamos os passos de Dédalo, tropeçamos. Tudo é reflexo doutroflexo. Acaba de preferência na cama.

17 de março de 2011

Rock Horror Show Grand Tour 2011

Garanta seu ingresso
Do F2

15 de março de 2011

O ataque impiedoso do velho rabugento

Eu hoje sou velho e rabugento. Reclamo de tudo e de todos.
Agora vou comprar uma bengala, e assestar vigorosos golpes em tudo o que me aborrece. Minha mulher, aquela santa, terá de ir me resgatar no distrito policial toda vez em que for assaltado dessa fúria que se permite aos velhos.
Confesso que não via a hora de ter minha própria bengala.

Tudo pode merecer bangalada; como diria qualquer engraçadinho, un coup de canne jamais n´abolira le hasard.
Por exemplo, a mania submissa da pronúncia. Hoje de manhã me irritou. Esse pessoal que tem alergia à língua portuguesa e desanda a falar qualquer palavra estrangeira enrolando a língua, torcendo a boca pra não sujar a palavra gringa, bacana, com as cores desse português brasileiro, chinfrim e mulatinho - como aquele presidente.

E dê-lhe core - fala-se, meus amigos, como o vocábulo latino "cor" com a pronúncia de Piracicaba. Se a gente disser isso a um desses puristas da pronúncia, ele fica triste, ressabiado, a gente estraga o prazer dele falar bonito. Que nem em Piracicaba não, isso nunca. Se fosse 5th Avenue, Faubourg St. Honoré, vá lá...

O pretenso valor social da pronúncia não passa de um manto esfarrapado que esconde a ignorância dos que o usam, pois o importante não é ser adestrado na língua do outro, mas conhecer a sua. Vê se o alemão sabe pronunciar "Pixinguinha", ou o americano; isso não os impede nunca de conhecer tudo a respeito.

Mas o melhor de tudo isso é que achei boa a idéia de descrever a pronúncia conforme aí em cima. Está inaugurado o Dicionário Prosódico do Velho Rabugento, a que me dedicarei com empenho. Um impulso positivo; até passou a vontade de dar bengaladas.
Minha mulher não vai ter de me retirar do distrito, pelo bem da harmonia familiar.

5 de março de 2011

Notícias à venda


Qual espaço não está, nos jornais?
Eu ainda leio quase todo dia o Estado de São Paulo. Nem sei porque, o hábito.
Desconfiado, leio. Nem tudo é verdade, muito é distorcido ou filtrado.
O noticiário político, sim. O noticiário de esportes, pode ser, quando tem interesses pesados.
O internacional, sem comentários.
A coluna social, essa virou de opinião. E noticiosa. O tamanho do porre que matou o presidente do TJ, só deu lá.
Agora, mexerem com a previsão do tempo foi demais. Antes do carnaval, nessa sequência de chuvas em São Paulo, inventaram que ia parar de chover. 0%  de chuva, é como eles escrevem. Saiu na 6ª, voltaram a repetir no sábado.
Ah, meteorologista erra? Nem tanto; até eu, que não distingo cumulus de cirrus, sabia que ia chover hoje. Meteorologista influencia as decisões das pessoas; o ramo do turismo é altamente interessado na previsão do tempo em um feriadão como esse. 
Não foi só no estadão, não; o rádio deu a mesmíssima previsão. Parece teoria conspiratória, mas não é; é a lógica do máximo desempenho aplicada às "modernas" empresas de comunicação.
O astrólogo previu a ascenção irresistível de José Serra. Agora,  a previsão do tempo. O último território virgem, parece, são os obituários. Será?

3 de março de 2011

Bons tempos em que o ouro era de Moscou

Nem tudo é perseguição, como disse um dia o paranóico; assim também as denúncias dos jornais nem sempre são direcionadas a um objetivo oculto: tem pilantra que é pilantra mesmo, e basta.
Onde anda o dinheiro que o PC do B embolsou em sua sesmaria no Governo Federal?
Não é de admirar que estes comunistas estejam se entendendo bem com Ricardo Teixeira, aquele que vai sobreviver, ainda que caquético, ao futebol brasileiro.

26 de fevereiro de 2011

Choro Novo

Hoje é dia de fazer um choro novo
em que cantem em coro raivoso
as notas que deixaram de soar
nas requintas da manhã, na praça da matriz;
Que dancem em trejeitos esquálidos
os loucos, os velhos e os tarados;
que passem a uivar os cães
e haja assim como um pressentimento,
uma nuvem escura carregada por um vento
súbito, forte e tempestuoso;
que o choro não seja essa música divertida,
bucólica, alegre, essa nostalgia,
dum tempo que ninguém sabe,
mas a música solar da madrugada,
o silêncio do balanço das taquaras,
contraponto ao rumor das avenidas.

11 de fevereiro de 2011

Por uma manobra nojenta, o governo de S. Paulo quer dar uma montanha de dinheiro público ao consórcio inepto que abriu a cratera na marginal Pinheiros, na obra da Linha Amarela, para tocar a obra da chamada linha Lilás.
Ornato urbano - o colosseum paulistano
Que bom!
Como foi conveniente a "descoberta" de "indícios" de "alguma coisa" na licitação da linha Lilás, nunca esclarecida. Aliás, uma auto-denúncia. Permitiu que, agora, o governo encontrasse a solução luminosa das PPPs.

9 de fevereiro de 2011

Fobia

Fobia
de andar por aí
de conversar no elevador
de dizer o que não devia
da amizade insincera dos corredores
da mesa ao lado
sobretudo dos vizinhos
ah esses sorrisos viciados, abertos a faca
dentes a mostra, nostalgia da mordida
com que nos brindam
de dia e de noite
os importunos cidadãos de bem
que nos acompanham na calçada
que por um acaso nos encontram
que pululam nas ruas dessa cidade
como num deserto, as formigas
cuja presença não consola, são antes pequenos tormentos
atrozes, e nós auscultando
o céu, a procura das aves
ou do esquecimento do mar, mas antes
temos de cumprir um compromisso,
responder uma mensagem, percorrer a rua Direita mais uma vez
mais uma vez torcemos em segredo
por aquelas catástrofes de filmes, por que não agora
um meteoro, um monstro horrendo ou qualquer bestialidade
não anula tudo, não sepulta a cidade de uma vez?
Logo se vê, horrível não é o fim instantâneo
- mas a continuidade desses ritos, desses tipos incessantes,
desses mecanismos de controle que se sucedem
num enjôo duma febre desmemoriada
dessa água muda que não corre de regatos
engarrafadas em corredores desnudos
que se escondem sob a terra
debaixo de trincheiras de metal.