27 de agosto de 2008

Automóveis

Babamos por carros, são atributos do ser para o idiota consumidor, ou seja, a gente mesmo.
Leio que nos EUA acabou a moda dos SUV, aquelas peruas enormes e agressivas na rua, beberronas. Agora o pessoal quer é carro elétrico, ou híbrido.
Porque é que no Brasil a gente tem de consumir a sucata tecnológica? À indústria interessa que o mercado local continue a consumir, em ritmo louco, aliás, sem ter de mudar as instalações, sem ter de investir nada. E ninguém fura o bloqueio do truste, mercado aberto up on ours.

6 de agosto de 2008

Suspiros e murmúrios

As montanhas da lua suspiram e murmuram.
O mar da tranquilidade.
O oceano do esquecimento.
Uma cortina que treme ao vento,
eu e você, aqui, a que viemos?

17 de julho de 2008

O Ovo

Um sujeito de suspensórios e cabelo escorrido na testa, vejamos, calças largas e barriga mais que razoável; este sujeito, alcunhado Ovo Frito, era o centro do universo. De longe, assim parado numa praça da cidade, via as coisas acontecerem à sua volta, espetáculos que se ofereciam.

Sentia que por sua causa tudo se movia, as folhas das árvores e os cães e os carros. Talvez isso lhe desse aquela satisfação bonachona, de mínimos movimentos.

Certo dia, declarou que era um dos justos que sustentam o mundo, e evitam que Alá fulmine a humanidade ímpia; preocupado, levei-o à tenda dos trancendentalistas; os sábios o examinaram e disseram que havia muita chance de ser mesmo verdade. Fiquei transtornado; nunca mais volto a consultar essa sorte de cambistas do além. Ainda me incomoda a noção de que minha existência depende de alguém como o Ovo Frito.

16 de julho de 2008

O Futuro de uma Ilusão

Artigo interessante no Observatório da Imprensa, questão de fundo no cenário do escândalo atual, o do banco Opportunity (occasio facit furem) (http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=494JDB007).
O caráter ficcional do dinheiro vai ficando claro. Dinheiro é uma crença, um pacto mútuo, um símbolo, uma liguagem que se desgasta; um dispositivo útil que ultrapassou sua finalidade, e foi entronizado.

A derrocada da estratégia dos bancos centrais é o plano geral da derrocada menor do banqueiro Daniel Dantas. Ambos são frutos legítimos de uma mesma ordem econômica, pautada na financeirização global, em que o capitalismo perde suas bases na produção, para fincá-las na especulação.
Veja o caso brasileiro: do total da renda nacional, 70% são rendimentos do capital; 30%, apenas, correspondem aos ganhos dos salários, segundo pesquisa anunciada pelo economista nacionalista Márcio Porchman, do IPEA. Claro, 30% dos salários não são suficientes para remunerar 70% do capital. Este, por isso, descola-se da produção para a especulação. Precisa esquentar dinheiro.

Infelizmente não entendo de economia, mas a circulação de moeda parece ser como a circulação de palavras, baseadas na crença comum do valor. Bens e trabalho estão hoje perdendo o vínculo com a realidade do dinheiro. O capitalismo financeiro tornou-se independente dos bens reais, das coisas. Parece evidente que haverá uma crise em que o caráter ilusório da moeda há de se revelar.

8 de julho de 2008

Leminski

Paulo Leminski
Pulo à Lemingue
sky
abismo mais fundo
o céu

27 de junho de 2008

Hoje o centenário de Guimarães Rosa

Hoje, 27 de junho de 2008, centenário de nascimento de João Guimarães Rosa, o maior escritor do Brasil.
Dia de ler Guimarães Rosa; hoje, e todo dia.

Para quem não tiver um livro à mão, tem Sagarana:

http://www.4shared.com/file/8508849/9edde404/Sagarana_Guimares_Rosa.html

24 de junho de 2008

Medo

Muito mais fácil é a toda hora do medo. Os olhares mudos avisam, inumanos. Controle mútuo, silencioso, eficiente. A racionalidade não pode nada contra o medo, que paralisa.
E todo dia estamos presos a ele, afastamos quem recusa seu golpe de agulha. O medo, a baba bovina do medo, a que Nelson Rodrigues se referiu - "estamos todos esperando o rapa"; estamos mesmo. Qualquer dia nos revoltamos se ele porventura não passar. A gente mesmo passa.

12 de junho de 2008

Grupo GR

Grifo, o grande, agradeçe as graças agradáveis,

e as graves negras íntegras do grupo.

Gravames e vinagres, alegrias e agrados,

jograis gritados por ogros ágrafos.

Angras, gretas na crosta incongruente,

O regresso agridoce dos degredos.

27 de maio de 2008

O barril de Amontillado

É título de um grande conto de Edgar Allan Poe, the cask of Amontillado. Muito bom mesmo; no entanto, até agora não sabia o que é o Amontillado. Aprendi que é um vinho de Jerez, denominação de origem controlada na Europa, e que esses vinhos são diferentes, parece que passam por um processo de destilação. De Jerez vem a denominação sherry.
O Vinho de Jerez é diferente porque, após a fermentação, é adicionado conhaque. Aliás, o destilado de vinho conhecido como conhaque é só um subtipo de brandy produzido na região de Cognac. Aprende-se muitas coisas com a internet.
Vejam, soube também que em Portugal há um brandy com denominação de origem, na cidade de Lourinhã.
E assim, ainda preciso provar desse Amontillado, porque dizer que é um tipo de Vinho de Jerez não quer dizer nada, ou xerez. Justamente, como diz o personagem Fortunato, a quem o narrador atrai inevitavelmente para uma armadilha, "Lucchesi não sabe distinguir Amontillado de sherry." Continuo sem saber o que é Amontillado. Aceita-se doação de garrafas.

26 de maio de 2008

Coiote.

No regrets, Coyote. O som de Joni Mitchell (Hejira) faz lembrar que Roberto Freire morreu, foi por um caminho além dos que conheceu por aqui, e forma tantos. Foi traçar novo Paebiru.
veja
http://www.caminhodepeabiru.com.br/ (clique em "o caminho")

31 de março de 2008

Fim do romance

Bem, faz tempo que não escrevo nada, e vou encerrando o assunto do livro de Monteiro Lobato. Tem coisas interessantes de a gente ver nesse o presidente negro. Na raiz do argumento está a crença de que a divisão racial nos Estados Unidos só faria crescer em mais de 200 anos, levando a uma sociedade radicalmente segregada. O feminismo também foi antecipado, como uma caricatura de certa forma. E o progresso da civilização industrial no rumo da transmissão intangível de informações - por rádio, foi o meio que Lobato imaginou- bem, essa é a antecipação mais fantástica desse romance.
Tudo isso aconteceu? Não; ninguém usa HAL 9000, mas nem por isso é menos admirado Arthur Clarke. Assim também Lobato, que escreveu essa grande obra de antecipação na década de 1920. Também imaginou uma sociedade que evoluiu para desconcentração urbana, tendo os meios para isso, coisa que não aconteceu. Vale a pena ler o livro de Lobato.

8 de fevereiro de 2008

mais do romance de Lobato, de 1926

O interessante para nós que o livro antecipa, como em Wells ou Júlio Verne, esse acontecimento da eleição dos estados unidos; no século 23, na eleição do presidente norte americano, disputam um candidato dos homens, e um das mulheres, que rejeitam a idéa de que homens e mulheres pertençam à mesma espécie. Os dois candidatos cortejam o líder dos negros, Jim Roy, que hesita em declarar apoio até o último minuto, quando, em um movimento surpreendente, declara-se candidato, e ganha a eleição.
Tudo isso é relatado por Miss Jane a Ayrton, embevecido, babando pela moça. Ainda há muita coisa interessante no livro, como o futuro da eugenia, as transmissões de informação à distância instantaneamente (vg internet), por "rádio". em outra postagem continuo.