Hoje, 27 de junho de 2008, centenário de nascimento de João Guimarães Rosa, o maior escritor do Brasil.
Dia de ler Guimarães Rosa; hoje, e todo dia.
Para quem não tiver um livro à mão, tem Sagarana:
http://www.4shared.com/file/8508849/9edde404/Sagarana_Guimares_Rosa.html
27 de junho de 2008
24 de junho de 2008
Medo
Muito mais fácil é a toda hora do medo. Os olhares mudos avisam, inumanos. Controle mútuo, silencioso, eficiente. A racionalidade não pode nada contra o medo, que paralisa.
E todo dia estamos presos a ele, afastamos quem recusa seu golpe de agulha. O medo, a baba bovina do medo, a que Nelson Rodrigues se referiu - "estamos todos esperando o rapa"; estamos mesmo. Qualquer dia nos revoltamos se ele porventura não passar. A gente mesmo passa.
E todo dia estamos presos a ele, afastamos quem recusa seu golpe de agulha. O medo, a baba bovina do medo, a que Nelson Rodrigues se referiu - "estamos todos esperando o rapa"; estamos mesmo. Qualquer dia nos revoltamos se ele porventura não passar. A gente mesmo passa.
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12 de junho de 2008
27 de maio de 2008
O barril de Amontillado
É título de um grande conto de Edgar Allan Poe, the cask of Amontillado. Muito bom mesmo; no entanto, até agora não sabia o que é o Amontillado. Aprendi que é um vinho de Jerez, denominação de origem controlada na Europa, e que esses vinhos são diferentes, parece que passam por um processo de destilação. De Jerez vem a denominação sherry.
O Vinho de Jerez é diferente porque, após a fermentação, é adicionado conhaque. Aliás, o destilado de vinho conhecido como conhaque é só um subtipo de brandy produzido na região de Cognac. Aprende-se muitas coisas com a internet.
Vejam, soube também que em Portugal há um brandy com denominação de origem, na cidade de Lourinhã.
E assim, ainda preciso provar desse Amontillado, porque dizer que é um tipo de Vinho de Jerez não quer dizer nada, ou xerez. Justamente, como diz o personagem Fortunato, a quem o narrador atrai inevitavelmente para uma armadilha, "Lucchesi não sabe distinguir Amontillado de sherry." Continuo sem saber o que é Amontillado. Aceita-se doação de garrafas.
O Vinho de Jerez é diferente porque, após a fermentação, é adicionado conhaque. Aliás, o destilado de vinho conhecido como conhaque é só um subtipo de brandy produzido na região de Cognac. Aprende-se muitas coisas com a internet.
Vejam, soube também que em Portugal há um brandy com denominação de origem, na cidade de Lourinhã.
E assim, ainda preciso provar desse Amontillado, porque dizer que é um tipo de Vinho de Jerez não quer dizer nada, ou xerez. Justamente, como diz o personagem Fortunato, a quem o narrador atrai inevitavelmente para uma armadilha, "Lucchesi não sabe distinguir Amontillado de sherry." Continuo sem saber o que é Amontillado. Aceita-se doação de garrafas.
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18:55
26 de maio de 2008
Coiote.
No regrets, Coyote. O som de Joni Mitchell (Hejira) faz lembrar que Roberto Freire morreu, foi por um caminho além dos que conheceu por aqui, e forma tantos. Foi traçar novo Paebiru.
veja
http://www.caminhodepeabiru.com.br/ (clique em "o caminho")
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15:52
31 de março de 2008
Fim do romance
Bem, faz tempo que não escrevo nada, e vou encerrando o assunto do livro de Monteiro Lobato. Tem coisas interessantes de a gente ver nesse o presidente negro. Na raiz do argumento está a crença de que a divisão racial nos Estados Unidos só faria crescer em mais de 200 anos, levando a uma sociedade radicalmente segregada. O feminismo também foi antecipado, como uma caricatura de certa forma. E o progresso da civilização industrial no rumo da transmissão intangível de informações - por rádio, foi o meio que Lobato imaginou- bem, essa é a antecipação mais fantástica desse romance.
Tudo isso aconteceu? Não; ninguém usa HAL 9000, mas nem por isso é menos admirado Arthur Clarke. Assim também Lobato, que escreveu essa grande obra de antecipação na década de 1920. Também imaginou uma sociedade que evoluiu para desconcentração urbana, tendo os meios para isso, coisa que não aconteceu. Vale a pena ler o livro de Lobato.
Tudo isso aconteceu? Não; ninguém usa HAL 9000, mas nem por isso é menos admirado Arthur Clarke. Assim também Lobato, que escreveu essa grande obra de antecipação na década de 1920. Também imaginou uma sociedade que evoluiu para desconcentração urbana, tendo os meios para isso, coisa que não aconteceu. Vale a pena ler o livro de Lobato.
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18:55
8 de fevereiro de 2008
mais do romance de Lobato, de 1926
O interessante para nós que o livro antecipa, como em Wells ou Júlio Verne, esse acontecimento da eleição dos estados unidos; no século 23, na eleição do presidente norte americano, disputam um candidato dos homens, e um das mulheres, que rejeitam a idéa de que homens e mulheres pertençam à mesma espécie. Os dois candidatos cortejam o líder dos negros, Jim Roy, que hesita em declarar apoio até o último minuto, quando, em um movimento surpreendente, declara-se candidato, e ganha a eleição.
Tudo isso é relatado por Miss Jane a Ayrton, embevecido, babando pela moça. Ainda há muita coisa interessante no livro, como o futuro da eugenia, as transmissões de informação à distância instantaneamente (vg internet), por "rádio". em outra postagem continuo.
Tudo isso é relatado por Miss Jane a Ayrton, embevecido, babando pela moça. Ainda há muita coisa interessante no livro, como o futuro da eugenia, as transmissões de informação à distância instantaneamente (vg internet), por "rádio". em outra postagem continuo.
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20:40
22 de janeiro de 2008
o presidente negro
O argumento do romance O Presidente Negro vai assim: o narrador, Ayrton, é um sujeito simples, que trabalha a para firma de Sá, Pato & Cia. Observa de longe a riquiza alheia, admira e teme os donos da firma, e tem seus palpites no mercado financeiro. Deseja demais ter um carro, com o qual possa esmagar os pedestres, gritando "Arreda!".
Certo dia, um conhecido lhe aponta, dentro de uma agência bancária, certo senhor - é o professor Benson, e segundo o outro consegue ganhar sempre no câmbio, prevê a valorização e a desvalorização das moedas.
Vai um dia Ayrton afinal consegue o carro, um Ford, e sai pelas ruas a buzinar, acelerado. Na firma, ganha aumento, faz os patrões verem que impressiona ter um empregado com automóvel - o romance é de 1926.
Então, certo dia, é enviado para Friburgo, em incumbência do trabalho, e vai com seu Ford, numa estrada péssima de início, trilha de carroças. De repente, vê-se em uma bela pista, e pisa fundo no acelerador, apreciando a linda paisagem montanhosa. Sofre um acidente, perde a consciência e seu amado Ford. Quando acorda, está diante do professor Benson, o do banco.
Revela-se então que o professor Benson é um velho sábio que vive recluso - ayrton lembra-se do capitão Nemo - com sua bela filha Jane, cuja beleza perturba o narrador. O ancião conseguiu construir um aparato que lhe permite ver o futuro e o passado, pois que ambos nada mais são do que consequências determinadas pela vibração do éter - o romance é de 1926 - o princípio ou unidade fundamental da matéria. Conhecendo e captando por antenas semelhantes a teias de aranha tais vibrações, soube o professor calcular os movimentos futuros do éter, ou seja, o estado do mundo e tal ou qual ponto futuro - ou passado. Tais momentos se lhe aparecem num globo chamado de cronoscópio. Tudo isso revela ao apatetado Ayrton, reconhecidamente ignorante, de poucos estudos, modesto caixeiro, porque vê que está perto da morte, tem a necessidade de contar a alguém a sua invenção, que não deixará para a humanidade, e respeita o Acaso, que é como um Deus, e lhe trouxera até ele.
Certo dia, um conhecido lhe aponta, dentro de uma agência bancária, certo senhor - é o professor Benson, e segundo o outro consegue ganhar sempre no câmbio, prevê a valorização e a desvalorização das moedas.
Vai um dia Ayrton afinal consegue o carro, um Ford, e sai pelas ruas a buzinar, acelerado. Na firma, ganha aumento, faz os patrões verem que impressiona ter um empregado com automóvel - o romance é de 1926.
Então, certo dia, é enviado para Friburgo, em incumbência do trabalho, e vai com seu Ford, numa estrada péssima de início, trilha de carroças. De repente, vê-se em uma bela pista, e pisa fundo no acelerador, apreciando a linda paisagem montanhosa. Sofre um acidente, perde a consciência e seu amado Ford. Quando acorda, está diante do professor Benson, o do banco.
Revela-se então que o professor Benson é um velho sábio que vive recluso - ayrton lembra-se do capitão Nemo - com sua bela filha Jane, cuja beleza perturba o narrador. O ancião conseguiu construir um aparato que lhe permite ver o futuro e o passado, pois que ambos nada mais são do que consequências determinadas pela vibração do éter - o romance é de 1926 - o princípio ou unidade fundamental da matéria. Conhecendo e captando por antenas semelhantes a teias de aranha tais vibrações, soube o professor calcular os movimentos futuros do éter, ou seja, o estado do mundo e tal ou qual ponto futuro - ou passado. Tais momentos se lhe aparecem num globo chamado de cronoscópio. Tudo isso revela ao apatetado Ayrton, reconhecidamente ignorante, de poucos estudos, modesto caixeiro, porque vê que está perto da morte, tem a necessidade de contar a alguém a sua invenção, que não deixará para a humanidade, e respeita o Acaso, que é como um Deus, e lhe trouxera até ele.
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17:59
9 de janeiro de 2008
Ars longa vita brevis
Com as eleiçoes prévias para a escolha dos candidatos a presidente nos EUA, cabe lembrar de novo como a vida imita a arte. Monteiro Lobato escreveu na década de 1920 o romance "O Presidente Negro", estória situada no futuro, e justamente o presidente do título era o dos EUA, no século 23.
A previsão chegou antes; vou ler esse livro de Monteiro Lobato, agora que o negro Obama vai bem nas prévias. Depois escrevo alguma coisa.
A previsão chegou antes; vou ler esse livro de Monteiro Lobato, agora que o negro Obama vai bem nas prévias. Depois escrevo alguma coisa.
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17:25
4 de janeiro de 2008
O grifo engripa
Engripado, o grifo agradece a graça
alcançada, com um erro crasso.
alcançada, com um erro crasso.
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16:37
13 de dezembro de 2007
Imp(r)ensado
Sem pensar no diz-que-diz (nem me diga),
quis dizer o que viesse, o que me desse na telha;
idéias zunindo - caixa d´abelha.
sai da frente! ninguém segura!
decidi que vai ou racha
nem foi, no final, nem rachou;
não sei bem, no final,
esqueci porque tanta sanha.
quis dizer o que viesse, o que me desse na telha;
idéias zunindo - caixa d´abelha.
sai da frente! ninguém segura!
decidi que vai ou racha
nem foi, no final, nem rachou;
não sei bem, no final,
esqueci porque tanta sanha.
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17:09
6 de dezembro de 2007
Teodoro Bimbão
Faz uns 3 anos, escrevi esse texto, à maneira de Guimarães Rosa. O jornalista Ricardo Noblat publicou-o no seu blog, no carnaval de 2005, e agora eu publico de novo aqui.
Amplíloquo e leonídeo, pensaroso e regalantifônico, Teodoro Bimbão tinha respeiteira e audissonância nas bandas de sua loca. Mirada longiferente e bocarrisoso, dito qualquer dele para os outros era ocasião de palestra, que nem sermão de padre ou discurso de prefeito, mas melhor.
Polissilva, aquelas grotas careciam do que há. Mas povo orgulhoso da sabença de conterrâneo porreta, Teodoro Bimbão esse. E o homem desnegava a quem se achegasse, verbivolente, acolhia bem, dizia o tudo.
Logo à volta já se formava platéia, crianças e velhos, e outros abanando a cabeça em concordância; era bom, era de maravilhar mas assim sossegado, sem susto, a voz aboiada do Bimbão enroninava a gente. "Veracente o olhável, meus filhos, nesses morros daí. Horizonte é de longe pra cá. O morro traça a linha, ou o céu?"
Das vezes brincava: "Neníforo palavranço e vocês estarres como se evangelheceres." Tinha prosa e receita quando da conversa macha de homens: "Mulher rideira dá, dadeira ri." Nem nada era só o dizível, que para atravessar um riacho um dia me falou, "transrivasseremos, nós mesmos do lado de lá, Zeninho?", Zeninho sendo meu nome.
Mas também conhecia dias ruins; certa vez, alguém lhe disse, "bom dia", a modo de educação, e Teodoro tardou a responder, voscilante enfim: "Acelitransluceperambitelumidinhe..." como reza ou rosário, coisas assim que perdia o fio de dizer, ia falando sozinho feito curso d´água, seus olhos desviam.
Sem juízo? Que sabe, doutor que é da cidade. Então ficava muitos dias quieto, parado, nem comer comia. Eu, pra mim, Zeninho somente sendo, Bimbão nem não aluava, mas nele o fio da prosa era comprido, feito que se a gente o joga o balde no poço, mas no Bimbão aquele o poço tinha fundo não, e o fio desenrolava e ia se indo...
A ver, se Bimbão a voz não falhasse e fosse falando o fio todo inteiro comprido que desenrolava lá pra dentro dele, o que é que a gente ouvia? Chegava no fim o quê? O doutor sabe? O falável, dele aprendi; no mundo, tudo são modos de dizença, seu Zeninho, avisou Bimbão, no dia em que saí das barrancas da terra boa da gente a caçar horizontes, carece viver. E certo era; era, doutor sabe?
Amplíloquo e leonídeo, pensaroso e regalantifônico, Teodoro Bimbão tinha respeiteira e audissonância nas bandas de sua loca. Mirada longiferente e bocarrisoso, dito qualquer dele para os outros era ocasião de palestra, que nem sermão de padre ou discurso de prefeito, mas melhor.
Polissilva, aquelas grotas careciam do que há. Mas povo orgulhoso da sabença de conterrâneo porreta, Teodoro Bimbão esse. E o homem desnegava a quem se achegasse, verbivolente, acolhia bem, dizia o tudo.
Logo à volta já se formava platéia, crianças e velhos, e outros abanando a cabeça em concordância; era bom, era de maravilhar mas assim sossegado, sem susto, a voz aboiada do Bimbão enroninava a gente. "Veracente o olhável, meus filhos, nesses morros daí. Horizonte é de longe pra cá. O morro traça a linha, ou o céu?"
Das vezes brincava: "Neníforo palavranço e vocês estarres como se evangelheceres." Tinha prosa e receita quando da conversa macha de homens: "Mulher rideira dá, dadeira ri." Nem nada era só o dizível, que para atravessar um riacho um dia me falou, "transrivasseremos, nós mesmos do lado de lá, Zeninho?", Zeninho sendo meu nome.
Mas também conhecia dias ruins; certa vez, alguém lhe disse, "bom dia", a modo de educação, e Teodoro tardou a responder, voscilante enfim: "Acelitransluceperambitelumidinhe..." como reza ou rosário, coisas assim que perdia o fio de dizer, ia falando sozinho feito curso d´água, seus olhos desviam.
Sem juízo? Que sabe, doutor que é da cidade. Então ficava muitos dias quieto, parado, nem comer comia. Eu, pra mim, Zeninho somente sendo, Bimbão nem não aluava, mas nele o fio da prosa era comprido, feito que se a gente o joga o balde no poço, mas no Bimbão aquele o poço tinha fundo não, e o fio desenrolava e ia se indo...
A ver, se Bimbão a voz não falhasse e fosse falando o fio todo inteiro comprido que desenrolava lá pra dentro dele, o que é que a gente ouvia? Chegava no fim o quê? O doutor sabe? O falável, dele aprendi; no mundo, tudo são modos de dizença, seu Zeninho, avisou Bimbão, no dia em que saí das barrancas da terra boa da gente a caçar horizontes, carece viver. E certo era; era, doutor sabe?
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